50 anos do golpe na Argentina: Milei relativiza à brasileira e milhares tomam as ruas de Buenos Aires

Em sete anos, de 1976 a 1983, a ditadura militar argentina deixou 30 mil desaparecidos, 2 mil mortos e sequestrou 500 filhos de ativistas políticos. O atual presidente do país, Javier Milei, por ocasião da data em que o golpe completou 50 anos publicou um vídeo nas redes sociais que começa com “24 de março: Dia da Memória pela Verdade e pela Justiça” e segue com a palavra “COMPLETA”.

Milei repete a mesma abordagem que serviu para os militares brasileiros se autoconcederem anistia, ao equiparar os crimes cometidos pelo Estado com as ações de resistência ao golpe. No Brasil, a reivindicação de anistia às vítimas do golpe de 1964 passava pela punição dos responsáveis pelos desaparecimentos, tortura e morte de milhares de pessoas, além da libertação de centenas de presos políticos e a volta de milhares de exilados e banidos. Mas em 1979, em nome da “pacificação nacional”, os militares negociaram um projeto que acabou cedendo de fato à libertação dos presos, mas em troca da auto-anistia de seus próprios crimes.

Na Argentina, diferentemente do Brasil, os militares foram julgados em um tribunal civil em seu próprio território apenas dois anos após o fim da ditadura. Mas a punição dos militares argentinos também encontrou resistência. Em 1986, por exemplo, uma lei chamada de Ponto Final paralisou a abertura de processos contra agentes da repressão, e em 1987 a lei de Obediência Devida isentou de culpa oficiais com patente inferior a coronel.

Agora os obstáculos ressurgem, pois Milei quando assumiu o governo passou a restringir o orçamento de programas que davam suporte a instrução de processos de vítimas da ditadura prestando assistência aos denunciantes.

Mas a resistência permanece e cresce. No dia 24 de maio, em Buenos Aires, centenas de milhares de pessoas lotaram a Plaza de Mayo, numa das maiores mobilizações dos últimos anos para marcar os 50 anos do golpe. Sob a chamada de “Nunca Más” (Nunca Mais) diferentes gerações se reuniram para preservar a memória do combate ao regime de exceção, ao mesmo tempo em que se sucederam críticas à Milei e sua política.

No Brasil, no dia 29 de março, às 16h, com início na antiga sede do DOI-Codi em São Paulo, 30 organizações realizam a 6ª Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado, com o mote “aprender com o passado para construir o futuro”. No dia 31, o golpe militar no Brasil completa 62 anos. Aqui a impunidade aos criminosos da ditadura militar, como o general reformado do Exército José Antônio Nogueira Belham, responsável pelo desaparecimento do deputado Rubens Paiva (1971), prossegue. Os militares criminosos permanecem livres, com sua patente e salário até hoje, abastecendo a descendência.

50 anos após desaparecimento, família recebe pertences de Tenório Júnior
Em 1976, o músico Tenório Júnior, então com 35 anos, foi executado com 5 tiros pela operação Condor – articulação das ditaduras do Cone Sul com o apoio dos Estados Unidos –  quando fazia turnê ao lado de Toquinho e Vinícius de Moares em Buenos Aires. Seus pertences foram entregues à família no dia 25 (quarta) no Rio de Janeiro. O corpo de Tenório foi encontrado em um terreno baldio e depois enterrado como indigente no Cemitério de Benavídez, em Tigre. Há outros casos como o de Tenório, que seguem sendo investigados.

Marcelo Carlinimembro do Diretório Estadual do PT-RS

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